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A vida de Mala Aviada

A vida de Mala Aviada

Desalojar de ideias #99

Dou por mim a pensar em quão estranha a nossa vida é, quantas voltas dá e deixa de dar. Dou por mim, deitada na cama, a olhar para a Alex a dormir, com carinha de anjo e pestanas compridas, e penso (como não hei de pensar?) em como estamos juntas agora já há mais de um ano e meio. Parece pouco, eu sei, no entanto, é tanto. É tanto mais do que o que se pode imaginar. E poderia ter sido completamente diferente e nem estarmos aqui, agora.

É que já passei por algumas relações; algumas mais dificeis que outras. O meu primeiro namorado, amazing guy. Namoramos durante dois anos. Durante um ano e meio estivemos na mesma escola mas acabei por ir para Vila Real fazer o secundário. Isto fez com que não resultasse. Acabamos no dia dos anos da Alex, três dias depois de fazermos dois anos de namoro.

Em Vila Real floresci, completamente. Abri-me para aquilo que sabia que no fundo, realmente era. Conheci a Jane porque a minha turma e a dela eram pequenas e juntavam-nos para ter português, filosofia, educação física e inglês. No entanto, quando a conheci, sabia que ainda não era altura de namorar com ela, sabia que ela ainda não estava pronta. Na minha verdadeira turma, de Artes, conheci amigas com as quais hoje ainda falo e conheci a minha primeira namorada. A Angie. Ah... "Tirei-a" do armário, e só no 11º , em Outubro é que começamos a namorar. E foram meses velozes, trágicos por vezes. Eramos iguais a nível artistico mas não tínhamos o clique. E discutíamos, argumentávamos, chateamo-nos muitas vezes sem motivo aparente, e ao fim do dia fazíamos as pazes. Isto durou cerca de um ano...

Porque nesse verão voltei a florescer, e descobri em mim coisas novas, apaixonei-me por novos projetos e do nada, a Angie já não cabia. Terminamos em Novembro e do nada... A Jane voltou a entrar na minha vida. Dizia à Scott que não queria ninguém, que estava na hora de me dedicar mesmo às artes e não deixar que o coração atrapalhasse. Nunca resulta quando tentamos focarmo-nos numa coisa, a outra vem logo atrás. E assim foi.

A Jane e eu começamos a namorar em Janeiro - na reta final do nosso 12º. Verdade: poderia ter feito tantas outras escolhas com a minha vida universitária, poderia nem ter tido uma. Mas de alguma forma, a entrada dela na minha vida fez com que algumas decisões fossem tomadas em função da relação ou daquilo que esperávamos da mesma. Tirei a carta de condução nesse verão, em Vila Real, tínhamos decidido ir para Lisboa estudar - o que acabou por não acontecer - e na última semana das candidaturas para a faculdade decidimos inverter tudo. Ela não iria para lusofonas para a clássica de lisboa nem eu para História da Arte para a Nova de Lisboa. Não. Rumamos para Norte: eu para Viana do Castelo e ela para Braga, eu para Design de Ambientes e ela para Inglês. Víamo-nos todas as quartas-feira e fins-de-semana, tentamos ser sempre positivas.

Da minha parte, foi um dos piores e melhores anos da minha vida. Passo a explicar: pior porque a faculdade não foi a experiência que eu queria ter tido ou imaginava vir a ter: não havia professores brilhantes prontos a ajudar e ensinar os alunos, não havia alunos brilhantes, super dotados artisticamente, não havia colaboração, empenho, organização. Gostei muito de Projeto, de História do Design, Sociologia e Antropologia. Adorava fazer maquetas, era criativo, empenhava-me imenso. Mas os professores não ajudavam, não eram da área especifica de ambientes mas sim de produto o que fazia com que ficassem com uma visão deturpada dos projetos. Mesmo assim, consegui manter um bom registo de notas e aprendi um pouco sobre uma área que é do meu mais intimo interesse. A cidade, ao longo do ano, passou de maravilhosa a assustadora, de cheia a vazia. Mas tinha a minha bicicleta, tinha o meu quarto com um espaço vidrado que dava para a ruela atrás dos CTT e tinha o mar. Mas não me sentia feliz, nem um pouco. Até que em Abril, depois de muito debater comigo mesma, decidi vir-me embora. Liguei aos meus pais, num pranto, e disse-lhes que não era aquilo que queria fazer, queria História da Arte, queria ir para o Porto. Assim, no fim-de-semana seguinte foram a Viana buscar-me a mim e à minha tralha toda, voltei para casa e refugiei-me no meio da natureza, no meio de livros e da agricultura. Ajudei os meus pais a fazerem de tudo, na fazenda, e ganhei dinheiro o suficiente para as minhas coisas. Foi o melhor verão da minha vida - e daí nasceu a minha paixão pela natureza e tudo o que a envolve. Agricultura biológica e tudo mais. Foi uma terapia para mim. E depois inscrevi-me para o Porto, faculdade de letras com a Jane. Entramos as duas e decidimos então, finalmente, morar as duas. E sim, moramos as duas na mesma casa onde ainda me encontro agora, nesta mesma cozinha onde tantas tartes, cupcakes, assados, bolos de chocolate foram cozinhados. Foi um ano bom, na gerneralidade, e um ano mau, na generalidade. 

Contudo, continuava a não sentir-me realizada. O facto é que a Jane é uma pessoa que tende a fugir à sociedade e às festas e tudo o mais. Perdi muitas experiências à conta disso, tinha 19 anos e não tinha uma vida social ativa, poucos amigos. E quem me conhecer pessoalmente sabe que há uma coisa que valorizo excecionalmente na vida: amigos, conversas e jantares. Não tive nada disso. No meu interior sabia que não ia durar assim, mas exteriormente não o mostrava. Já havia sido fraca uma vez na minha vida, como voltar a sê-lo? Não, tinha a namorada, a família e um futuro a encaminhar-se - embora o meu coração me dissesse que não seria assim. No segundo semestre as coisas começaram a complicar-se. Fizemos uma cadeira de fomação contínua de Cultura e Filosofia da

India. Abriu-me os olhos de novo e floresci. Tive algumas conversas com a minha querida amiga Teresa, que era a professora que leccionava o curso. A Jane ficou doente, íamos todas as semanas ao hospital, começou a fechar-se ainda mais até que voltou para Vila Real. Fiquei sozinha durante algum tempo no apartamento. Esse algum tempo deu para perceber várias coisas e uma delas era que eu já não era feliz como outrora tinha sido. Esse ano que poderia ter sido fenomenal, com os meus 19/20 anos, foi um fracasso nas coisas que mais valorizava. Isto não era faculdade, era um casamento, e eu já tinha 50 anos. 

 

De alguma forma, durante estes anos todos, a Alex esteve sempre mais ou menos presente. Tínhamos sido muito chegadas no liceu até eu ir para Vila Real... Falávamos por sms de vez em quando. Até que, um dia, já no final do 1º ano, verão começado, a Alex convidou-me para ir ao cinema e falar-mos um pouco. E fui. Vimos Date Night com o Steve Carell e Tina Fey, falamos imenso e decidimos ir ao festival Marés Vivas desse ano: um cartaz fantástico e finalmente alguma coisa que pudesse fazer-me esquecer os meus 50 anos e sim viver os 20. E aí, aí aconteceu algo terrível/espetacular. A Alex e eu, depois de tantos anos, envolvemo-nos. Foi terrível porque tinha a certeza que isto seria o fim da minha relação com a Jane com a qual ainda namorava - yes, i'm a asshole! - e foi espetacular porque finalmente senti-me... eu. Senti-me eu em toda a minha glória, senti-me viva, radiante e extásica por estar com a Alex. Foram 3 dias que nunca mais alguma vez poderei esquecer (com frequência recordo-me do nosso primeiro beijo...) e as semanas a seguir foram um misto de terror e paixão. Não sabia como dizer a Jane que a tinha traído e que seria o nosso fim, decidi optar pelo clássico it's not you, it's me. Levou a semanas de discussão, semanas de acusações, de choros e tudo o mais. Até que em Agosto, finalmente, ficou tudo resolvido. Eu queria a Alex e não a Jane. Ponto final. 

Detalhes à parte, a Jane morou neste apartamento ainda durante 2 meses, a Alex vinha cá frequentemente, houve momentos de completa loucura que não quero recordar. A Alex mudou-se em Janeiro para cá devido a problemas de homofobia por parte da colega de casa dela e desde aí... Já progredimos muito, já temos uma gata, já discutimos algumas vezes por coisas como a roupa suja, passar a ferro ou mudar a areia à gata... Mas finalmente tenho um grupo de amigos que está por perto nem que seja através de sms, damos jantares, vamos a jantares e festas, saímos à noite, quando saímos, conhecemos mais pessoas, dançamos, rimos, ficamos em casa a ver comédias românticas ou dramas, eu ensino-lhe arte e ela ensina-me dentária. E digo-vos, sou feliz. Posso vir a ser mais, já fui menos. Mas atualmente, sou feliz - se tirarmos o pavor que tenho de este ser o meu último ano e não fazer ideia do que fazer a seguir.

Aquela madrugada de dia 16 de Julho de 2010 foi, indubitavelmente, my turning point. E agradeço ao Universo por isso todos os dias.

 

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