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A vida de Mala Aviada

A vida de Mala Aviada

Soulmate

- Sorri! Anda lá! Sorrrrriiiii! - soltas uma gargalhada tão cheia de doçura e repleta de vontade que acabo por te querer enrrolada no ninho que os meus braços formam só para te darem um sítio onde ficar.

 

Encontro-te no comboio amarelo, a tua bicicleta descartável mantém-se quieta mesmo ao teu lado. Acho que reconheço esta e aquela cara... E aquela também. Tantas vezes fazemos o percurso, tantos rostos se cruzam com os nossos. Lembras-te do miúdo que uma vez se virou para nós: os meus papás gotam munto de mim e eu também goto munto delesss! Aquela expressão feliz concebida na face de uma alma tão pequena?

Passo a mão pelo teu ombro, beijo-te a testa e solto um sorriso secreto que só tu entendes: o sorriso de semana acabada, de horas futuras que nos partecem exclusivamente.

Sento-me. Parece o metro de NY... Lembras-te quando fomos lá pela primeira vez? Uma única mala e cerca de cinquenta postais. Uns copos da Starbucks e uma enorme vontade de ficar: enterrem-me no MoMA gritava eu. Oh sagrado Rothko....

 

- (olhares cumplices) é horrivel chegar ao fim-de-semana!

- Oh, que desgraça! Quero uma outra semana de trabalho asfixiante!

 

Soltamos gargalhadas pequenas e grandes, cor-de-rosa e verdes, com 512MB e 2GB de memória no cérebro das pessoas ao lado. A minha mochila está finalmente pousada no chão e dou-te um longo abraço que merecidamente te traz a mim. O teu cheiro continua igual depois de tanto tempo e a frase que e dizes mantém-se fiel a ela mesma:

 

- Cheiras bem!

 

Pausa. A pausa do dia. Quando a minha mão toca na tua, quando os teus dedos apertam os meus, quando os anéis se encontram, quando a tua voz se lança a mim, quando o teu olhar me projecta, quando o teu beijo me recompensa. Fico estática. A minha boca sorri, os meus olhos sorriem, o meu cabelo sorri, as minhas mãos sorriem... Até o meu fígado sorri!

 

- Sabes que fim-de-semana é este? Aquele que marca a nossa primeira viagem de comboio juntas. Lembras-te?

 

Se me lembro? Parece que foi na semana passada: íamos para o Porto. Apanhei-te em Nine, na última carruagem. O teu cabelo brilhava e ondulava com os raios solares de fim de tarde, a tua t-shirt verde lima estava empregnada do teu imenso perfume e do sabor de um dia tórrido de anunciação de primavera. Trazias o mesmo colar que trazes hoje e a mochila igual  à minha, em que a única distinção era os pines que  a minha expunha para o mundo. Sentamo-nos uma ao lado da outra, quase fingindo que não éramos amantes; ajudei um senhor a sentar-se ao nosso lado - tal como hoje, íamos nos bancos de metro e não nos de comboio. O sol passava-nos entre as pestanas enquanto íamos reconhecendo na falta pequena, intermédia e grande que fazíamos uma à outra. Isto foi antes de irmos viver para o Porto. Estava com tanta vontade de sair que até me levantei na Campanhã pensando que já era S.Bento. Quando chegamos a cidade acolheu-nos com boas maneiras: tão boas maneiras que me deu a provar a melhor conjunção de sande alguma vez feita - queijo com banana. O vício do café, o vício do amor... Lembras-te Rita? Nesse dia também voltei a mencionar que queria adoptar um balinês e expliquei-te de novo porquê. Fomos a viagem de autocarro, de seguida, enrroscadas uma na outra amando as nossa moléculas uma a uma... Mais um bocadinho.

Queria-te só para mim. Agora tenho-te só para mim. Agarrada aos meus sonhos, à minha vida e às minhas provas já cumpridas. Agora és só minha: já nem importa o que os outros acham ou não - importa mais que nunca que me ames e me transformes no melhor que eu possa ser e que eu te ame e te transforme no melhor que tu possas ser - afinal de conta, não é para isto que as almas gémeas servem? 

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