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A vida de Mala Aviada

A vida de Mala Aviada

Glas or glass or, still, glad. The last one.

 

    E um sorriso pelos contornos dos teus olhos desenha-se; um sorriso que vem com um ensonado "Bom dia!" mas bem disposto. Respondo num monotonia de voz quase irritante de tão alegre ser. O meu cabelo espalha gotinhas de água de tamanhos diferentes e variados na tua pele morena natural enquanto te beijo o nariz e a testa e as bochechas e o espaço entre o teu nariz e a tua boca bem delineada. Fazes uma expressão que me faz pensar que tudo até agora tem valido a pena, mesmo que às vezes tenha sido pior - de uma forma ou de outra.
      Ver-te despertar na cama sem teres noção das horas, do tempo e da intensidade de luz que está lá fora faz-me dar utilidade às primeiras palavras da manhã que se dividem entre: " queres pequenalmoçar na cama ou arranjar-te primeiro?" - mas o que decides convence-me de uma maneira muito mais fascinante. As tuas mãos passam para baixo da minha camisola azul londrina e sobrevoam a minha pele ao mesmo tempo que os dedos fazem pequenas e delicadas aterragens que me dão minutos de prazer tão grandes que não caberiam nos bolsos das nossas calças de viagem nem nos bolsos das mochilas ainda por desempacotar todos juntos.
     Rebolo para junto do teu corpo mais desperto que na passada noite aquando do regresso a casa e tu, sem demorar muito, despes o que acabava de vestir com mestria, destreza, facilidade e delicadeza.
Amo cada gesto que fazes e desenhas sobre as linhas da minha pele: suspiro, deixo-me levar. Deixo que me dês o mundo de mão beijada, deixo que me faças aproximar mais um pouco da textura das nuvens, da cor do céu. Deixo que te reconheças através de mim.

 
    Lembro-me que há uns anos atrás esperei para que alguém entendesse o que seria o despertar matinal com alguém certo. Acho que isso se sabe a partir do instante em que se olha à nossa volta e nada mais valha tanto quanto o primeiro momento do dia da outra pessoa. E lembro-me, passado anos a acordar na tua presença, que tudo se cinge ao momento único matinal e aos minutos que o seguem - e no nosso caso, todos eles (ou quase todos), muito singulares de formas dispares e convincentes, acrescentando sempre uma nova tonalidade de cor aos círculos do nosso mundo.
Envolvo-te nos meus braços agora. Deixo que pouses a tua cabeça no meu peito, sentindo a oscilação da minha respiração e o meu batimento cardíaco. Com a minha mão esquerda faço gestos repetidos que teimam em aquecer-te  a pele mais um bocadinho.
 
    Ouço um suspiro; ouço a tua voz seguindo-o. E harmonia, de novo. "Amo-te com todas as letras, amo-te com tudo o que sou de ponta a ponta." Em resposta, sorrio e penso em grãos de açúcar, pacotinhos cheios deles... cheios, a transbordar! "Dia sim, dia sim. Todos os dias e mais um.". Sei que valeu a pena esperar anos. Sei que valeu a pena passar pelo muito e pelo pouco para agora poder ter tudo o que fazia sentido e continua a fazer.
    Enrolas as tuas pernas nas minhas e eis a resposta: pequeno-almoço na cama.
    Era o que esperava.

 

 

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