Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A vida de Mala Aviada

A vida de Mala Aviada

Refúgio de vida - história, Alice.

Sentada na mesa rabisco a folha de papel que a envolve. O chá arrefece, os biscoitos mantêm-se no mesmo sítio e a vida continua a passar.

Passa-me ao lado, penso eu. Talvez porque a chuva já não tenha o mesmo encanto que teve quando  passeavamos por ela de dedos entrelaçados - um hábito que pouco a pouco se foi perdendo como a poeira se perde no deserto.
O casaco castanho mantém-se quieto e permanece cheio de cor, cheio de cheiros - o teu continua aqui, presente; envolto sobre e sobe a mesa, a meu lado.
Nos meus gestos denoto a incapacidade de continuar sem ti, de repetir sem alternar gestos e palavras: percorrer as ruelas em dias soalheiros não tem significado, olhar as estrelas e entende-las é me difícil agora. O amanhã agoira novo dia de nada, de não ser e de não fazer: deixo as decisões penduradas atrás de mim, na porta por onde saio para ver a linha ténue de vida na cidade. A história acompanha-me no bolso do casaco castanho que cheira a nós; a caneta está sempre do lado esquerdo e sempre à mão. Mas para quê solver-me em letras e parágrafos se já não estás para leres e desabrochares sorriso de lábios finos em pequenas doses?
Já não pousarás a tua mão de pele branca sobre a minha, mais escura. O meu cabelo não te fará mais cócegas na face nem na testa. Não sinto o teu abraço nem o teu perfume, tal como deixei de sentir o pulsar do sangue que jorrava por ti a cada instante.
Musa de letras e de entendimentos que me deixou arrefecer o coração: este pedaço de pedra escura que trago aqui não faz mais que carregar o peso de te ter deixado partir, um dia. Um como qualquer outro em que o chá fervia e os livros se abriam.
Havia tantas razões para te ter, te querer, te amar, te reconhecer e todas elas... Foram. Foram com o vento que sopra na tarde escura de Outono que prepara a cidade para o vazio.
Alice, já me havias dito. E eu não o levei a sério. Tudo o que queria passava por ti, mas tinhas razão: que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser. Que não seja transefrência nem refúgio. Mas foi, tal como tu foste. Alice.
 
 

Image and video hosting by TinyPic