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A vida de Mala Aviada

A vida de Mala Aviada

Fill me up with... - I need someone to say Hi at night.

   A caneca quase com vida própria enrrosca-se nas minhas mãos aquecendo ambas. Chá de maçã e canela com uma colher de açúcar porque só assim é que sabe a canela - é um facto estranho: talvez como o do café estar morno e só aí se sente o seu verdadeiro sabor, e se lhe juntarmos canela, o dela.
   Puxo o meu cabelo para trás num gesto rápido, afastando-o do meu campo de visão que está virado para a frente onde estás tu e eu. Será que isto é parecido com alguma coisa daquilo que eu pensei? Hm, não. Por esta altura e pela ordem dos meus pensamentos e desejos infinitos, estarias aqui, Rita. Estarias porventura a escovar os dentes na casa de banho pequenina do T0 que iamos alugar e que por acaso ficava na Praça da República, no coração da cidade. Talvez até tivessemos igualmente um frigorífico dos yogurtes da Danone e também teriamos um espaço a começar a ser preenchido. Mas seria nosso, e tem atenção a esta palavra: nosso. Implicaria um eu e tu, um tu e eu juntas ao fim do dia, um "Olá mor! Já estou em casa." e abraços e cheiros e beijos e mimos e muito do que começava a ser usual - já - no nosso quotidiano; implicaria um estado não irritante e absolutamente desconfortável de neuroses, de idas abaixo e de complexas discussões entre o eu e o mim. Implicaria presença: presença. Palavra que requer uma coisa: estar - obviamente. Mas aparentemente, a utopia não foi atingida.
    Puxo de uma das cadeiras do quarto, uma das cinco e sento-me. Pergunto-lhe se já alguma vez se sentiu sozinha. Não há resposta: presumo, então, que sim. Quem cala consente. O quarto é grande, realmente grande: fantásticas entradas de luz que tentam por-me de bem com a situação logo pela manhã - e conseguem, a 50%; a outra metade seria praticada por ti se ao voltar-me na cama pudesse sentir as formas onde encaixo, o corpo de alguém que não eu e visse a tua fascinante expressão de acordar. Mas por enquanto, Rita, contento-me em chegar a casa e deitar-me sobre a cama a pensar que um dia será possível; que os impossiveis, no nosso mundo, são os mais fáceis de concretizar: porque se conseguimos ser o que somos neste mundo disfuncional, então conseguimos tudo. Até isto.
  
 A caneca volta a enrroscar-se, é a segunda.
 Já me ligas, dizes tu. Dor de alma, digo eu.

 

 

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