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A vida de Mala Aviada

A vida de Mala Aviada

Off the closet

 

Doze badaladas e bem vindo a um novo ano; sorri e abracei imensa gente. Fui buscar o copo de champanhe, brindei, bebi. Quando dei por mim, o Pedro olhava para mim: estás bem?

Eu? Acho que sim. A música começou a tocar Rita: I'll brooke all rules, and baby I'd brooke them for you... Sabes - claro que sabes - aquele sorriso e estaticidade? Aquela invasão de sérias palpitações, de brilho nos olhos, de.... je ne sait quoi et je le sai très bien? I was made for you e não estavas lá. Não estavas e mão conseguia perceber porque é que toda a gente podia abraçar a pessoa que mais ama, dar-lhe um beijo e "desejo-te um bom ano querida". Não terei eu também direito a isso? E tu, Rita? Não teremos direito a festejar juntas a despedida do ano que mais não nos podia ter dado?

Deambulei pela casa, de compartimento em compartimento. As estrelas, na varanda, já haviam desaparecido devido ao fumo do fogo de artifício. Só queria um abraço, um que perdurasse de um ano para o outro.

 

Sentei-me no sofa, na cozinha, não havia ninguém. A mãe, radiosa, chegou-se a mim: não pude evitar depois de tantas perguntas. "Mãe, tenho saudades da Rita. No domingo é o nosso primeiro aniversário e não vou estar com ela."

Fui-me abaixo. Contei-lhe tudo com franqueza, saí do armário de uma vez por todas. Recebi um abraço e perguntei-lhe se ainda gostava de mim e se orgulhava de mim: mais do que nunca.

A minha irmã entra, a minha mãe sai: "sabes quando te disse que se pudesse casar, casava com a Angelina Jolie?"

"Mana, eu sei, Queres dizer que és lésbica? É isso? Já desconfio desde que a Rita veio cá". Mais um abraço. Com lágrimas e sorrisos. Com pequenas explicações e promessa que ela iria ser madrinha de um dos nossos piquenos. A minha irmã tem 11 anos, entendeu-me melhor que ninguém, foi mais humana que muitas gente da nossa geração.

 

Tinha que contar ao pai. Somos quatro. Tem que fazer sentido para os quatro.

Sentei-me na cama com colcha cor-de rosa, ele preparava-se para ir para a cama:

Pai, tenho uma coisa importante para te dizer. Não sei como vou fazê-lo. Olha, sabes, sou ... Homossexual. Lésbica, o que quiseres. Por momentos soube que não iria haver um som naquele quarto, sabia que a minha voz tinha emitido o que podia ser parecido a um terramoto: "Filha, a vida é tua. Se o és, sê-o. Não posso fazer nada quanto a isso. Gosto de ti na mesma, continuas a ser a mesma."

Mesmo se quiser casar, vais comigo ao altar, não vais?

"Claro que sim!"

E mais um abraço.

 

Rita, a minha felicidade acumulou-se ali e ali ficou. Amanhã fazemos um ano, e provavelmente não estarei contigo mas sou feliz por já poder dizê-lo em voz alta em casa, e se estiver cabisbaixa, eles sabem a verdade. Sem problemas. Tenho a sorte de ter estes pais fantásticos que me aceitam e me dão tudo o que posso mais querer: amor e orgulho da sua parte. It's still me but off the closet..

 

(Ritinha? Só faltou o teu abraço!)